quarta-feira, 27 de abril de 2011

1705: Uma turma com 10 alunos (01/04/2005)

Olá, meu nome é Rogério, e se você está lendo isto, eu provavelmente já estou na faculdade. Isto é um relato diário do que acontece em minha turma de 7ª série*. Meu plano é fazer este diário durar um mês, mas nunca se sabe o que pode acontecer. Então, comecemos:
Minha turma é razoavelmente pequena para uma turma de 7ª série*: são 10 alunos! Falarei deles ao decorrer do dia. Esta história começa no dia primeiro de abril, para muitos uma diversão, mas não para mim, André e Fábio (meus amigos). "Por quê?" Você se pergunta. Simplesmente porque as pegadinhas no colégio São Francisco não eram brincadeira de criança. Eu comecei o dia mal. Ao entrar na sala, Tiago (um menino exibido e totalmente convencido de que ele mandava no colégio), Disse que meus sapatos estavam desamarrados. Como os meus cadarços sempre desamarravam mesmo, eu me abaixei para amarrá-los. POR QUE EU FIZ AQUILO? Imediatamente, Mateus, um dos "discípulos" de Tiago me acertou nas costas com um pedaço de madeira. Eu caí no chão.
"Primeiro de Abril, Otário!" Disse Tiago, rindo.
Mateus riu também, mas Tiago fez uma cara feia e parou. Eles saíram e me deixaram lá, caído no chão. Então, uns minutos (que pareceram uma eternidade) mais tarde chegou Marcela. Ao me ver caído no chão, foi correndo me ajudar a levantar. Me sentou na cadeira e me olhou. Eu estava vermelho igual a um pimentão. Por que sempre Marcela me achava nas situações mais constrangedoras? Marcela era um anjo. Loira dos olhos azuis, além disso aplicada aos estudos e correta. O único problema era que não dava liberdade pra ninguém conversar com ela. NÃO TINHA AMIGOS, mas por escolha própria. Então, puxando-me de volta ao mundo real, como que por um milagre, ela falou:
-Você está bem?
Eu me espantei, mas fingi naturalidade e respondi:
-Sim, claro. Foi só mais uma pegadinha de primeiro de abril.
-Eles não perdoam ninguém mesmo! São muito... MEU DEUS! SEU NARIZ ESTÁ SANGRANDO!
-Não é nada, quando eu bati a cara no chão ele deve ter se machucado. Eu estou acostumado.
Tirei um lenço da mochila (eu já andava prevenido) e limpei o nariz. Marcela falou novamente:
-Olha, sei que você deve estar se perguntando porque não tenho amigos. É porque...
O sino tocou. entraram então na sala Tiago, Mateus, André, Fábio, e as meninas "populares", se é que isso ainda é dito, Tatiana, Paula, Geovana e Fernanda. Elas entraram cochichando e sentaram-se uma atrás da outra. Então entrou o professor e a aula começou. Não aconteceu nada de interessante, então vamos pular para o intervalo.
O sino tocou novamente e todos saíram correndo pra cantina. Depois de comprarmos os lanches, Marcela veio falar comigo.
-Vamos sentar com meus amigos - eu disse.
-Não, não. Quero falar só com você.
-Tudo bem.
E em meio a pegadinhas, nós nos sentamos em uma mesa separada.
-Como eu ia dizendo, eu não tenho amigos porque em outra escola eu sofri cyberbullying. Eu era gordinha, sabe? E era xingada por isso, mas tinha amigos. Um dia, fui a uma festa de uma amiga. Então dançamos, tiramos fotos, nos divertimos. Eu amei. Mas no dia seguinte, havia cartazes pela escola toda em que estava escrito: "VEJA MARCELA, A BALOFA DO COLÉGIO NA WEB." E um site. Eu não entendi direito, mas ao chegar em casa e entrar no site me apavorei. Eram minhas fotos da festa com legendas me xingando! Minha mãe me tirou na escola, e eu fiz uma dieta. E eu fiquei três meses fora da escola. NO ano seguinte, vim pra cá. Mas hoje decidi que não podia ser mais assim o resto da minha vida. Decidi dar um basta nisso, sabe?
-Entendo você, também sofro bullying, você sabe.
-Mas...
O sino tocou e todos entramos. Vamos pular de novo para a hora da saída.
Saímos todos apressados e eu vim correndo escrever sobre o dia de hoje no meu bloco de rascunhos para a história final, esta que você lê agora. Então, apareceu Tiago.
-E aí nerd? O que você tá escrevendo? Deixa eu ver!
Ele tomou o bloco da minha mão e começou a ler. Eu ia tomar o bloco de volta, mas o carro da minha mãe apareceu na porta do colégio, e ela não podia saber que esse menino me atentava, de jeito nenhum, senão eu estava morto. Eu entrei no carro e fui embora da escola, planejando como recuperaria minhas preciosas anotações e deixaria aquele bobão de boca fechada.

*Em 2005 ainda não havia a nova divisão de períodos escolares.
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Próxima postagem: Provavelmente amanhã, se o tempo me permitir. Desculpem o atraso de dois dias!

Um comentário:

  1. Cyberbullying, gostei Caio de sua introdução chamando a atenção deste tipo de bullying que as vezes é um pouco esquecido no meio acadêmico gerando um bom processo para quem o faz.
    Continue criticando as injustiças, para que seus leitores possam ter empatia por seus personagens. E parabéns por sua coragem! Grande abraço.

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